Rafael Tavares, 21, Lykke Li, Los Hermanos, Chico Buarque. Uso o Tumblr por dificuldade em desapegar do passado e de me adaptar ao wordpress. Estudante de arquitetura, professor e fracionado entre os pseudônimos que aqui escrevem.

Os versos começaram a fazer menos sentido do que antigamente. No olho do furacão, acho inseguro escrever sobre incertezas, então espero.

Trapézio

E aquela grande sensação de que algo está em falta. Não fugindo dos clichês, apenas o contornando, a sensação de que algo palpável não é o suficiente pra sustentar a linha tênue entre o vazio interior e as coisas que não cabem no peito. Por assim, durante certo tempo, me abstive de tentar confrontar ou expor, acanhado por arames enrolados de medo sem concebimento lógico. 

A medida que o tempo corre - com pressa ou não - a dependência e todos os anexos que vem com o amor tornaram minha luta interior com esse vazio não mais exprimida. Acostumei a lidar e parei de expulsá-lo em formas de palavras, o que me tornava cada vez mais cheios de hematomas que, no fim das contas, foram criados por mim.

Cá estou então, novamente, libertando o pseudônimo que ainda carece de uma denominação, novamente. Após uma luta e o medo das perdas, o trapézio não parecia tão distante assim. Talvez um hematoma de uma queda, enfim, fosse menos doloroso do que perder-se em si.

Tudo muito bem.

No auge dos meus 16-17 escrevi algo que - pra variar - falava de alguém que não levou minhas expectativas muito a sério. Apesar na idade tenra eu, tal como até hoje, me perdia em meio aos meus pretextos e tentava agarrar o ar com a mão de todos os modos possíveis. Esquecia o suficiente, sonhava ao contrário e evitava ao máximo decolar voo, fobia oriunda das cicatrizes do número de quedas decorrentes.

Meu romance ali, enfim, era uma grande bola de amargura. Algo que eu fazia questão de carregar nas costas, mesmo com os calcanhares já quebrados por um passado que assistia diariamente em minha mente. Cair era inevitável. Me levar ao extremo toda vez que a anatomia em questão aparecia em minha frente, me privar das minhas próprias explosões e chegar ao meu limite ao ponto de me tornar completamente inexpressivo apenas confirmava algo que todos que estavam ao meu redor evidenciavam: Eu estava fodido. No que me competia, eu apenas diagnosticava a doença e lhe repudiava o tratamento.

No que ali eu acreditava - e que eu escrevia veemente como o romance que eu tanto lutava pra diagnosticar - eu apenas colecionava mais uma cicatriz avulsa. E lutava. Mordia a língua milhares de vezes - e ainda mordo - na tentativa de, mesmo que ínfima, de meu pensamento sonhador não ser apenas uma grande ilusão, ou uma mentira que me contei durante tanto tempo.

Com grande receio disso tudo, algumas palavras escapam da minha língua e param nos dentes, todas com medo de que você confirme minhas piores teorias.

Para o que coube em 5 meses

 E pro que não cabe mais também.

Eu já consegui cair mesmo olhando pro chão o tempo todo. O fato de eu me perder em pensamentos fez com que a única coisa que me impedisse de fraturar a própria testa no meio fio foi sempre andar distante do que era limitado. Pessoas foram espectros os quais eu raramente identificava os rostos, algo que simplesmente passava e deixava só a brisa como recordação. E em um desses desvios - nem o primeiro e provavelmente não o último - desviei o olhar do chão focado durante tanto tempo.

Foi assim que me perdi.

O vislumbre do que passou ao meu redor fez com que eu começasse a olhar pros lados, começasse a andar em linhas sinuosas e parasse de notar o que estava a minha frente. Então reduzi o passo com a intenção de ser completamente racional quando na verdade estava sendo suficientemente emocional a ponto de reduzir a minha marcha na intenção de acompanhar o passo que me fazia lentamente. Do outro lado da rua, lá estava você, como algo que me seguia paralelamente, mas sem uma aproximação real. Por algum motivo, eu parei em frente a sua porta, e assim dezenas de vezes sucessivamente, a estrada que eu seguia me levou até ali a partir do momento em que parei de olhar o caminho pra vislumbrar o céu e o que passava ao meu redor. 

O preço de parar em frente a sua porta foi maior do que eu fui capaz de pagar: Olhei tanto para os lados que acabei no meio fio que tanto temia.

Farol.

Todos aprendemos conforme o ritmo ditado pela vida, do mais simples ao mais complexo. Quanto lutamos contra o ritmo ditado, o tempo, a ordem, entregamos aos demais um desejo pré-concebido ou simplesmente lutamos contra nós mesmos a única coisa a ser acumuladas são feridas de cicatrização difícil. Ali, esperando pra ser aberto independendo da dificuldade do caminho - do problema, da situação, do amor não correspondido - em questão.

Eu poderia simplesmente ignorar o turbilhão de sensações que me avassala e os quais você já está acostumado, porque eu não acostumei. Nem mesmo quando grandes doses de morfina são injetadas ao contato do meu peito contra o seu. E, os grandes sinais luminosos que abririam um caminho óbvio e talvez menos tortuoso nessa névoa que reside na minha cabeça sequer apareceram. Não falamos a mesma língua.

Tentando iluminar por conta algo que caberia a você, eu me jogo em meio a uma maleabilidade que não me pertence (uma a qual você não compartilha) e nos coloca em mais um grande impasse. Em alguma hipótese, quem sabe, meu peito nunca foi sua moradia. Nunca porque você não quis. Ao passo em que seguia arrancando frases que não lhe despertavam atenção maior do que a dicção correta. Talvez você tenha jogado as chaves dessa possível moradia fora. Talvez, também, nunca lhe tenha passado pela mente a menor hipótese de habitá-la.

Então, aqui estou, reduzindo aos poucos as doses de você. Desobedecendo algumas convicções e auto-martírio que eu declarei ao ter a cidade às minhas costas enquanto seguia em sua direção. Reduzindo a força dos faróis e, por fim, desligando mais uma vez. Deixando que a névoa que habitara em minha mente, enfim, tome o rumo que sempre deveria ter tomado.

As borboletas que habitam em mim.

Atendendo a necessidade de escrever algo que fuja do seu nome em alguma frase concreta. Alguns bichos de asas que fazem cócegas no meu estômago, me fazem ter vontade de sair o tempo todo pra rua gritando o mesmo nome que de uns tempos pra cá vem povoando meu vocabulário. A questão é que o turbilhão de borboletas faz com que eu me sinta em uma constante montanha russa a qual tira completamente minha capacidade de raciocínio. Quando entro em calmaria, lá estão elas voando novamente por dentro do meu peito. 

Escrevi por inspiração? Não. Escrevi porque as palavras acumuladas dentro da minha cabeça e dentro do meu peito quiseram uma fuga rápida, indiscreta e espontânea, mesmo que escassa de conceitos. Escrevo por preguiça, por medo, por raiva, por amor. Escrevo também porque de uns tempos pra cá a droga na qual estou viciado e que atende pelo seu nome mostrou-se presente em todas as minhas frases. 

Agora, produzo por ordem das borboletas. Sem rumo, sem métrica exata, sem concepção elaborada. Os sentimentos que não consigo expressar acabam impressos aqui - mesmo que nem sempre lógicos, positivos e esvoaçantes por grandes céus abertos.

- Rodrigo Amarante

Backup.

Hoje levei o computador ao técnico durante a manhã, por azar, notei que esqueci de fazer um backup antes da formatação, perdendo uma quantia considerável de lembranças que eu guardava. Das mudanças. Das trocas. De uns tempos pra cá, descobri os malefícios de substituir luz solar por lâmpadas e seus derivados, mesmo assim, insisto em permanecer nessa espécie de repouso mental. Prefiro mesmo. Com isso, tudo o que me frustra, constrange e intriga vai para as teclas do computador. Escrever é uma forma de recordar, atacar, restringir, desabafar. Uma maneira de aparar as arestas e amenizar um pouco as angústias diárias. São as lembranças descarregadas a ponto de você ler e acompanhar seu crescimento pessoal que não é notado devido ao tempo colocado em acompanhar o que não é você. É a prova do desleixo comigo mesmo, e, apesar de soar constrangedor, não me afeta. Assim eu acumulo tudo o que é bom e produtivo, tudo mesmo. De risadas à mágoas, passando por precipícios criados pelo simples desaparecimento do solo dos meus pés - fato cada mais mais comum na minha vida. Até as derrotas pessoais. O que não é útil, eu tento camuflar. Tento soterrar, já que em palavras é fácil ocultar algumas memórias, mas infelizmente não dá pra jogá-las na lixeira e excluir permanentemente, porque a mente - de uma maneira que cada dia me confunde mais - insiste em colocar tudo o que fere (de maneira inútil) em backup.

Fall Asleep

Eu tenho vivido um pouco mais, ou um pouco menos do que deveria. O romance que anteriormente amarrava algumas cordas soltas da minha vida se mostrou completamente disperso. Minha literatura se mostrou uma grande página em branco e, o resultado das experiências acumuladas, mais um fardo do que um crescimento. 

Meu romance, enfim, mostrou-se pó. Me tirou a paciência, me tirou a confiança e também alguns anos de vida. A medida que a possibilidade da existência do romance crescia, eu me afogava nas suas proporções e perdia, mais uma vez, o pouco controle que me restava. O romance é ardil, astuto, perigoso. Perigoso porque faz com que, afinal, cada um dê o melhor de si para um desfecho que nem sempre conta exatamente com finais felizes. Achamos que podemos viver sem ele, mas poucos dias evidenciam o oposto, e, mais uma vez, lá vamos nós, vagando entre a luz e o breu total.

Da última vez, guri. A última mesmo. Desisti do meu romance. Da última vez soei como se, por ventura, fosse eu quem tivesse ido embora, embora como se soasse como se fosse o que eu sempre quis. Eu nunca tive a intenção de fugir, só parei. Parei de me iludir, parei de me anestesiar com a droga que ultimamente era o que me movia e que atendia pelo seu nome.

Em encrenca, afinal, não está o romance. Estou eu, estão milhares e logo estará você. O tempo que tirou a minha paz pode demorar, porém não vai exitar em tirar a sua.

Litost, canal 42!

Esse texto é bem velho e até hoje não pensei em um título que fosse realmente coerente, mas talvez faça sentido agora.

Cada pessoa, de seu modo, lida com as coisas de um modo diferente. Talvez meu último grande sopro de angústia ocorreu quando, na final expectativa em encontrar o romance que me escapava pelos dedos, saquei o telefone antes que ele tocasse mais uma vez. A individualidade das pessoas em relação a lidar com grandes acontecimentos de modo inesperado e sempre fora da minha linha de imaginação e raciocínio sempre povoou boa parte dos meus maiores medos. Então lá estava eu, aos 20 - tal como aos 19, aos 18 - sendo puxado, arrastado e perdendo o pouco controle que restava.

De um modo geral, a opção racional após eventos traumáticos é, talvez, o mais emocional ao qual uma pessoa pode chegar. O que é mais emocional do que se privar de sentir por ter tanto que não lhe cabe no peito. Da última ligação até agora, guri, sinto vergonha de cada resquício da minha vida por apenas enxergar um vazio. O som da sua voz, como das vezes anteriores, ecoou mais alto que um tiro e me jogou ao chão novamente. Eu já sabia todas as respostas. E lá se foram as rédeas do meu controle emocional. Descontrole. Desinteresse. Desistência. Litost. A grande burrice que me movia era, justamente, saber de todas as respostas sobre as perguntas as quais eu não tinha o menor interesse em pensar.

Os minutos que se seguiram foram desesperadores e decisivos de uma maneira superficial.

Aqui estava eu ao telefone, mais uma vez, assim como todas as anteriores já declaradas e apagando cada vela de esperança. Cá estou eu, numa contagem interminável de cenas que passavam em minha cabeça como um filme que eu sabia que reprisaria em minha mente como um anexo a pensar em você. Cá estou eu, parado em frente a minha TV, olhando seu filme passar no canal 42. Novamente.